Moda é coisa de gente fútil?

Não mesmo.

 

“Moda é coisa de gente fútil”. Se eu ganhasse R$ 1,00 a cada vez que ouvisse essa frase, estaria rico. Riquíssimo. Agora, o que eu pergunto de volta é simples: por quê?

As respostas são sempre as mais lunáticas e, às vezes, até raivosas. Nunca precisas. “Porque sim! Porque é, oras!”. Não.

Chamar a moda de futilidade é uma estratégia machista para rebaixar as mulheres ou subentender que o tudo que é próprio da mulher, é ruim, secundário, trivial. Parece radical, mas não é. Observe a história.

Durante a década de 1920, Gabrielle Bonheur Chanel, na França, estava desafiando uma série de comportamentos repressivos através de suas ideias sobre o vestir. Por que mulheres não podem usar calça? Usar o cabelo curto?

CHANEL

 

Em 1947, a coleção da Dior foi chamada de “New Look” e todo o glamour, providenciado pelo volume das saias e a delicadeza da cintura demarcada, devolveu à mulher os prazeres da moda – tirados delas durante a guerra. 

DIOR

Já na década de 1960, a cultura jovem explode, os Beatles revolucionam a música e Pierre Cardin, por sua vez, transforma a moda por completo, estética e comercialmente. Surge a minissaia.

CARDIN

Polêmica, até hoje ninguém sabe dizer ao certo quem foi que inventou a peça símbolo do começo da busca pela liberdade sexual. Yves Saint Laurent, nos anos 70, também foi ousado. Roubou a supremacia do luxo masculino e a entregou para as mulheres: o smoking. Um pouco mais adiante, o sexo e a moda começam a se conhecer mais.

Claude Montana e Thierry Mugler criam uma femme fatale, quase super-heroína com ajuda de Gianni Versace ali na década de 1980.

MUGLER

 

Por todo esse tempo, a moda namorou a arte. Mondrian, Cocteau, Dali e tantos outros nomes de peso colaboraram com ela. Porém, como todo namoro problemático, um começou a se confundir com o outro. Nos desfiles de Rei Kawakubo, estilista da Comme des Garçons, surge uma pergunta: moda é arte?

Ninguém sabe responder, mas, de tudo isso, tiramos um fato: depois dessa viagem pela história da moda, é impossível acreditar que ela seja uma mera frivolidade. Ela é, no mínimo, uma maneira de se conhecer e se libertar.

Moda é um dos poucos instrumentos de poder que a sociedade patriarcal cedeu, sem querer, às mulheres. A moda acompanha não só a libertação sexual, mas é também um espaço para evasão da criatividade, deslegitimado unicamente pelo machismo que não suporta ver uma mulher na capa de uma revista sendo protagonista absoluta de um segmento da cultura.

Não é a toa que recentemente, o feminismo tem entrado na pauta de vários criadores. Por mais que tenha soado um pouco oportunista – devido ao hype conquistado pelo movimento depois do discurso de Emma Watson na ONU – o fato da Chanel ter montado uma passeata no fim do desfile na última temporada é muito significativo. Cuidado, a moda tem poder. Use sem moderação.

Por Pedro João de Camargo, publicado originalmente no site da MTV.

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