Mas eu quero ser artista!

Ou como o teatro pode, sim, ser uma opção profissional

“Você tem que escolher uma profissão e ser alguma coisa na vida” e “É bom você amar o seu trabalho, mas ele tem que dar dinheiro” foram duas das muitas expressões que ouvi durante os três anos do colegial. Quando entrei no Ensino Médio, descobri o teatro e a literatura, que me serviram de base para o que sou e procuro ser hoje. Ao mesmo tempo, eu começava a me adaptar aos horários diferentes e às responsabilidades, que aumentavam: era um momento novo, que tanto me abria portas para criação, quanto me introduzia, com doses regulares de ansiedade, no caminho para a universidade.

Particularmente, três pontos principais me irritavam no discurso pré-vestibular: a ideia de que eu precisaria escolher uma função única pra exercer pelo resto da vida, a de que a minha personalidade seria delimitada pela minha escolha profissional e a necessidade de dinheiro acima de qualquer coisa. Eu queria ser artista, mas, fui “avisada”: não teria um puto no bolso.

TUMBLR

“Pagar minhas contas? É claro, só um segund…” (TUMBLR)

Domitila Gonzalez e Murillo Basso, ainda que tenham tido dúvidas, não engoliram seco como eu fiz: cursaram Artes Cênicas. Em comum, eles carregam a descoberta de seus corpos como instrumentos para dar voz a si mesmos (ou a um ideal, ou às minorias, ou à qualquer coisa), mas os dois não se conhecem. Ela, de 24 anos, se diverte cozinhando sobremesas e foge toda vez que se depara com uma aranha. Ele, 23, fala alemão e passa mal de vergonha se estiver em um grupo que chama muita atenção na rua. Possivelmente, uma das coisas que mais aproxima a personalidade deles é o tesão que sentem quando sobem no palco. (E, olha, uma vez submetido à essa sensação que faz o corpo todo vibrar, não tem mais como fugir).

Murillo fez o curso na USP e também na EAD – Escola de Artes Dramáticas, ambas públicas, enquanto que Domitila, que escolheu jornalismo como primeira opção, realizou um curso técnico na Escola Superior de Artes Cênicas Célia Helena. Conversei com os dois sobre essa maluquice de arte como profissão (e não só), e, a cada resposta, tive vontade de jogar tudo pro alto e sair correndo direto pro palco.

Domitila em "Sonho de uma Noite de Verão". FOTO: Valérie Mesquita

Domitila em “Sonho de uma Noite de Verão”. FOTO: Valérie Mesquita

 

1. Quando você descobriu que queria teatro?

Murillo: A descoberta é gradual. Você vai indo curioso, um pouco desconfiado. Quando percebe, já está completamente envolvido pelo desejo de estar em cena. Gosto de pensar que foi no momento em que escutei o público entrando no teatro pela primeira vez, no segundo colegial. Estava atrás da cortina espiando e comecei a chorar na hora. Não entendi nada. Só tinha a certeza de que era uma delícia estar ali.

Domitila:Descobri que queria ser atriz depois de passar um ano sem fazer teatro, quando fazia intercâmbio na Espanha, dois anos depois de ter cursado jornalismo. Lá, vivi boa parte do tempo experenciando a questão artística europeia e, quando voltei, não tinha mais jeito: era Cênicas que eu tinha que fazer.

2. E a família, como reagiu?

Domitila:Existe uma expectativa criada sobre nós, enquanto jovens, que nem sempre corresponde ao que desejamos fazer. Às vezes, seu pai deseja ardentemente que você seja uma grande profissional da Engenharia, mas você quer fazer Artes Plásticas. Aí você faz engenharia porque você ama o seu pai, mas, trinta anos depois de formada, se aposenta e vai finalmente fazer um curso de aquarela, aproveitando seus últimos dez anos de vida fazendo o que sempre quis fazer. Oi? Que lógica estranha é essa? Minha família respondeu muito bem à notícia. Eles sempre acompanharam e participaram de tudo. E isso, eu acho, foi fundamental.

Murillo: Minha família tem o hábito de confiar plenamente nas minhas escolhas. Isso me dá um certo medo às vezes! Rs. Acho que como eu sempre fui meio nerd-teimoso-determinado, o apoio deles veio da certeza de que eu trabalharia muito para alcançar os meus desejos. Além disso, era visível minha mudança depois de entrar no teatro. Eles sabiam o quanto me fazia bem.

3. Em algum momento você pensou em voltar atrás?

Murillo: E como! Rs. O medo de abrir mão de um “plano mais seguro” ficava martelando na minha cabeça. “Plano mais seguro”. Isso não existe! A sorte é que o tesão pelo teatro foi mil vezes maior! A partir do momento que fui sincero com o meu desejo, segui firme.

Domitila: Não. Quando eu fiz minha decisão de fazer o curso técnico em Artes Cênicas, ela estava muito clara. Durante o curso, numa conversa com um professor, fui instigada a terminar também o Jornalismo. Hoje, trabalho com teatro, mas levei os dois cursos ao mesmo tempo e não me arrependo da escolha!

4. Muita gente diz que não é possível viver de arte, principalmente pela questão financeira. O que você acha?

Domitila: Não concordo. É possível viver de arte, sim. O que eu acho que acontece é uma desvalorização da própria classe artística em relação a si. É preciso começar a considerar a arte como uma opção de vida e de trabalho que gere renda. Muitas vezes, ouvi de colegas de profissão “Ah, ela não trabalha, ela só faz teatro”. Peraí: eu trabalho, sim! É a mesma lógica do lance de “escolher a profissão” aos 17 anos. Quem disse? A ideia de “profissão” ainda está vinculada à cultura das grandes empresas que fazem muito dinheiro em pouco tempo.

Murillo: Não concordo. Concordo que é muito instável, que nossa profissão é extremamente desvalorizada e que não existem caminhos infalíveis. Porém, acredito em trabalho. Se você trabalha duro, você consegue sim viver de arte. E com muito prazer

5. Se pudesse aconselhar o você do passado, diria o quê?

Murillo: Calma, Murillo! Respira, porque tudo tem o seu tempo. A princípio, tudo que você precisa é olhar pro mundo e se interessar.

Domitila: Eu diria pra fazer tudo de novo! Talvez, se minha primeira escolha tivesse sido Artes Cênicas, eu não teria tanta certeza de que foi a escolha certa.

Murillo, na peça "Carne Moída". FOTO:

Murillo, na peça “Carne Moída”. FOTO: Felipe Stucchi

OBS: depois dessa matéria, Gabriela deu voz a seus desejos mais primitivos: pegou uns trapos em casa, comprou um pote de nutella e uma passagem de ônibus para o nordeste.

Lá, pretende morar num trailer e viver de teatro mambembe. Continuará escrevendo para o plano V por meio do envio semanal de cartas, que serão gentilmente digitalizadas pelas outras editoras.

Gabriela Soutello

Gosta muito mais de literatura do que de jornalismo, finge que sabe atuar em cima do palco e, pro azar (ou pra sorte) dos psicólogos, está constantemente insatisfeita.

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