Grafiteira do Afeganistão usa a arte para lutar contra a violência

Malina Suliman transforma cenários de guerra e dá voz às mulheres oprimidas

Guerra, violência e sofrimento são algumas das primeiras imagens que vêm à cabeça da maior parte das pessoas quando ouvem falar do Afeganistão. Mas, nos últimos anos, uma nova geração de artistas tem lutado para mudar esta realidade, enchendo os muros de várias cidades do país com desenhos e cores.

Malina Suliman, de 24 anos, é uma desses artistas. Ela usa o grafite nas ruas e exposições de arte para despertar a consciência crítica da população afegã e encorajar as mulheres a lutar por seus direitos.

Talibã: o que é? Grupo extremista islâmico que governou o Afeganistão de 1996  a 2001. Atualmente, busca expulsar as tropas estrangeiras do país e impor um conjunto de leis baseado em uma interpretação muito rígida dos textos islâmicos. O grupo, por exemplo, proíbe a cultura ocidental e impõe uma série de regras às mulheres. Além disso, usa táticas violentas como atentados suicidas e carros-bomba.

Ela começou seu projeto em Candaar, cidade no Afeganistão que é reduto do Talibã. Mas seu trabalho acabou sendo muito ousado para ser feito em uma região com muita influência do grupo extremista. O fato de Malina ser mulher e a primeira artista provocativa de sua cidade fez com que ela e sua família recebessem várias ameaças. Ela, então, teve que deixar o seu país natal. Atualmente, mora na Holanda e faz mestrado em artes visuais.

Reprodução Facebook / As paredes antes brancas têm, agora, imagens provocativas

Reprodução Facebook / As paredes antes brancas têm, agora, imagens provocativas

 

plano V: Qual é a sua maior inspiração artística?

Malina Suliman: Minhas artes visuais são sobre a situação no Afeganistão e um modo de questionar a minha própria identidade e papel na sociedade. Eu cresci em um ambiente em que bombas, tiros, mortes, opressão e injustiças são diários e considerados normais. Por outro lado, ignorância e crimes são recompensados.

As mulheres afegãs são agredidas nas ruas de Candaar por vestir uma cor chamativa “errada” ou andar de bicicleta, mulheres em todos os lugares [do Afeganistão] são tratadas como objetos sexuais ou como máquinas de produzir bebês. Isso sem falar no assassinato diário de mulheres em público.

Então, eu pensei que poderia usar a arte para acordar a voz das mulheres e para aumentar a consciência sobre os seus direitos. Eu queria refletir a verdadeira imagem dos violadores em vez de recompensá-los. Para concretizar tal objetivo, comecei um projeto em 2011 na cidade de Candaar porque havia uma grande violência contra as mulheres lá.

Ao representar essa cultura de violência e armas aberta e honestamente, permite-se que a população do Afeganistão fale sobre ela e aumente a consciência sobre o que ocorre. Com a arte de rua, as pessoas podem se fazer ouvidas.

É prometido a todo momento que as mulheres afegãs terão seus direitos garantidos, mas isso nunca acontece de fato. Eu tento, o tempo todo, encorajar as mulheres e mostrá-las que direitos não são um pedaço de bolo que lhes será dado: você precisa lutar pelos seus direitos e conquistá-los.

 

Reprodução Facebook

Reprodução Facebook

 

Como é ser grafiteira em um país em que este tipo de arte não é comum?

Minha metodologia incluiu muito o uso de grafite e também de outros gêneros, como pintura e escultura. Grafite é uma arte que discute sem nenhuma barreira e, para mim, é uma arma que pode atingir as emoções do público de forma positiva.

Minha arte é simbólica e simples, mas muito efetiva. Por exemplo, o grafite de um esqueleto usando uma burca azul, ainda que controverso, fez gerar muitas discussões. Ele também representa a opressão feminina e a resistência.

Uma de minhas pinturas é o desenho de uma mulher com um martelo, tentando quebrar uma porta que está fechada para ela. Outra representa uma mulher presa em um cubo de gelo. Uma terceira, esqueletos de mulheres cozinhando e sendo agredidas. A arte também instiga esperança e coragem: a mulher não tem medo de seu gelo, luta contra ele.

Nós replicamos o mesmo projeto nos muros de outras cidades do Afeganistão, como Cabul e Mazar-e Sharif.

 

Reprodução Kabul Art Project / Ela representa a opressão feminina e a resistência

Reprodução Kabul Art Project / Ela representa a opressão feminina e a resistência

 

Ser artista no Afeganistão é mais difícil para as mulheres?

Ao fazer parte da primeira geração de mulheres artistas e grafiteiras do Afeganistão, eu facilitei os workshops sobre arte contemporânea e grafite em Candaar para as futuras mulheres interessadas em arte. Estes workshops tiveram um retorno positivo na forma de novos grafites em toda a cidade de Candaar.

Quais foram os principais desafios que você precisou enfrentar?

Esse projeto não foi fácil para mim. Por eu ser uma mulher e a primeira artista provocativa da cidade, era um projeto muito ousado para ser feito na terra natal do Talibã. Se eu fosse pega, poderia ser morta e causar perigo para minha família. Eu recebi muitas ameaças do Talibã à minha vida pessoal. Essa é uma das razões pelas quais eu tive que deixar o país.

A arte de rua é realmente desafiadora, mas no Afeganistão é algo entre desafio e impossibilidade, principalmente para as mulheres.

Quando eu grafitava nas ruas da cidades, ninguém mais estava fazendo grafite no país, nem mesmo em Cabul. Sempre que deixava minha casa para grafitar, não sabia se conseguiria voltar em segurança, ou se voltaria viva.

Maria Cortez

Tem mais miopia que horas de sono. Metade capixaba, metade paulistana, gosta tanto do mar do Espírito Santo quanto das cores de São Paulo.

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