Israel-Palestina: a vida de uma garota na faixa de Gaza

A palestina Sarah Alkhatib, 18 anos, ficou 50 dias sem sair de casa no último conflito com Israel

Arquivo pessoal

Arquivo pessoal

Sarah Alkhatib, de 18 anos, estuda Engenharia de Arquitetura na Universidade Islâmica de Gaza. Assim como várias outras meninas de sua idade, ela adora ler Gabriel García Márquez e Jostein Gaarder, e sonha em se tornar uma grande artista plástica no futuro. Mas, nos últimos meses, sua rotina sofreu uma mudança radical: em vez de ir à aula, trabalhar e passear com os amigos, Sarah passou cerca de 50 dias sem poder sair de casa.

Durante a última guerra com Israel, os palestinos que moram na faixa de Gaza viram quase tudo ser destruído à sua volta. Os bombardeios diários avançavam pela noite, reduzindo a pó casas, escolas e hospitais. Fechada com sua família onde poderia estar mais segura, Sarah passava os dias se comunicando com jornalistas e lendo notícias sobre o que estava acontecendo do lado de fora.

Em seu Pinterest, Sarah publica seus desenhos e pinturas

Em seu Pinterest, Sarah publica seus desenhos e pinturas

plano V: Como você vê o que aconteceu no último conflito com Israel?

Sarah Alkhatib: Eu acho que tudo o que aconteceu na última guerra mudou cada um de nós. Em alguns momentos, eu não tinha nenhuma esperança, eram as horas mais difíceis para mim. Eu tentava me ocupar durante o meu tempo livre, para que não sentisse como tudo estava indo mal. Eu falava com jornalistas e escrevia relatos sobre o que tinha acontecido. Música e livros me ajudavam a me sentir melhor o tempo todo.

Eu acho que todo mundo ficou cansado porque a última guerra durou tempo demais. Nós ficamos cansados de tudo e de tantas notícias ruins à nossa volta. O medo estava ao meu lado durante todos os dias da guerra. Fico feliz que eu e a minha família tenhamos saído dessa com segurança. E sinto muito por todos aqueles que perderam a suas casas e entes queridos. Espero que eles consigam achar um modo de seguir em frente e completar a vida como normalmente era, ainda que imagino que seja muito difícil.

Facebook / Sarah registrou o resultado dos bombardeios na região de sua faculdade

Facebook / Sarah registrou o resultado dos bombardeios na região de sua faculdade

Como era a sua rotina antes e depois da guerra?

Antes do conflito, eu tinha muito tempo e era muito organizada. Ia para a faculdade, voltava para casa para ler alguns dos livros da minha lista e pintar ou desenhar, porque gosto muito de arte. Fazia tudo isso ouvindo música clássica. Eu também ajudava minha mãe a cuidar dos meus irmãos e irmãs mais novos e passava algum tempo nas redes sociais.

Eu escuto todos os tipos de música boa, principalmente música clássica e óperas. Meus livros preferidos são os que nos fazem pensar melhor e mais profundamente sobre a vida e ver as coisas por outros pontos de vista. Eu gosto de autores como Gibran Khalil Gibran, Gabriel García Márquez e Jostein Gaarder.

Durante a guerra, minha rotina era acordar, checar as últimas notícias e assistir um pouco de jornal na televisão, falar com jornalistas, traduzir notícias ou escrever alguns depoimentos. Eu também lia alguns livros quando ficava cansada de notícias. Era o que eu fazia na maioria dos dias. Eu nunca pude ir à aula ou ao trabalho, só podia sair de casa se houvesse uma trégua.

Agora, meu trabalho está atrasado até as coisas melhorarem e as aulas na faculdade estão muito puxadas. Eu não tenho mais muito tempo livre, porque há muitas coisas a fazer para recuperar o tempo perdido. Tudo está mais estressante do que antes.

Pinterest

Arte por Sarah Alkhatib

Você tem amigos israelenses?

Não, eu nunca conheci um israelense.

Do que você mais gosta em Gaza?

O que eu mais gosto aqui são as pessoas e como elas se unem sempre que alguém precisa de ajuda. Elas amam a vida, e eu também. As pessoas de Gaza nunca desistem e têm um espírito lindo, cada uma delas. Amigos e família são algumas das coisas que me fazem amar viver aqui.

 

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Maria Cortez

Tem mais miopia que horas de sono. Metade capixaba, metade paulistana, gosta tanto do mar do Espírito Santo quanto das cores de São Paulo.

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