E se eu beijasse minha melhor amiga?

“Você tem um saco de pão pra eu esconder minha cara?”

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No dia em que Ana beijou a melhor amiga ela não tinha a menor ideia do que estava fazendo.

Não, aquilo não era uma decisão-pra-vida-inteira. Ela não estava apaixonada e sequer sabia se aquela sensaçãozinha englobava tesão, amor de amiga, amor além-disso ou só curiosidade. Foi um impulso cheio de medo e vontade que de repente apareceu, ainda que ela considerasse, aos 15 anos, algo absolutamente maluco (e errado!). Ana não sabe exatamente como se desprendeu de boa parte das amarras que tinha para se permitir viver aquele comecinho de sensação nova e leve que surgia – mas, ainda que se sabotando algumas vezes, implorando pra todos os santos que fizessem passar, negando e renegando a vontade, permitiu.

No dia em que Ana beijou a melhor amiga, passava pela sua cabeça a voz da sua mãe falando que aquilo não era natural; a cara de nojo de umas colegas do colégio quando falavam da “sapatão” que tinha na sala do lado e, principalmente, um incômodo próprio que a fazia duvidar se ela mesma seria capaz de aceitar a ideia de estar beijando uma pessoa do mesmo sexo. “Você tem um saco de pão pra eu esconder minha cara?”, disse a melhor amiga de Ana, logo após o beijo. Ela gostaria de ter tido dois.

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A melhor amiga de Ana tinha a mesma idade que ela, e também tinha vergonha, mas se importava muito menos com a opinião dos outros. Por algum motivo – criação, amizades ou até a segurança própria – ela não teve medo nem tentou barrar a vontade de estar com Ana. Afinal, o que poderia haver de tão errado num sentimento que as movimentava, as estimulava a indagar padrões, a se questionarem, a se auto-conhecerem e, mesmo com o mindfuck, ainda irem dormir sorrindo? O que poderia haver de feio no carinho de um beijo?

“Eu estava na sétima série e tinha 12 ou 13 anos, e eu e minhas amigas queríamos saber se beijávamos bem. Era apenas uma curiosidade, normal. Um ou dois anos depois eu realmente senti vontade de ficar com uma menina, mas também não pensando ‘quero ficar com ela porque é menina’, e sim porque gostava dela, achava atraente. Penso que algumas pessoas não aceitam relações entre pessoas

do mesmo sexo por causa das tradições mais antigas, por preconceito. Outras, por medo de provarem e gostarem e não saberem lidar porque não é ‘socialmente normal’ ou ‘aceito’. E experimentar, uma vez, não o torna gay ou seja lá o que for. Mesmo que seja contínuo, mesmo que seja apenas um ou dois encontros e nada mais, somos pessoas e fim, vale qualquer tipo de relação, desde que o respeito prevaleça, sempre.”
(Camilla Campos, 20 anos)

Muito tempo se passou desde que Ana beijou a melhor amiga e, desde então, ela foi conhecendo e convivendo com pessoas que sentiam o mesmo medo, a mesma desaprovação e a mesma necessidade de se sentir pertencente a algo visto como natural. A televisão e as revistas continuam a ditar sempre o mesmo padrão, e o “natural” acabava sendo, para Ana, a sensação de estar constantemente fora-do-normal. Ana nunca quis saber de cor as “dez maneiras de conquistar o menino lindo do colégio”, e não porque ele era um menino, mas porque ela queria ter a liberdade de ser e sentir da sua forma e de encontrar alguém que ela mesma considerasse interessante – e que quisesse estar também com ela pelo seu modo de ser, e não por regrinhas e fórmulas de moda/comportamento/aparência. A melhor amiga de Ana era essa pessoa.

Quat’sous Films

Ter se permitido dar vazão à vontade que teve de beijar a melhor amiga proporcionou a Ana anos de um relacionamento repleto de sensações bonitas e sentimentos com os quais ela nunca havia entrado em contato – e que foram muito importantes para ajudar a formar o que hoje ela é e no que acredita. Aquilo era bom. Elas se faziam bem. Mas então, caramba, de onde é que tiraram que alguma forma de amor poderia ser errada?

Ter beijado a melhor amiga abriu a Ana inúmeras possibilidades de autoconhecimento e de aceitação de escolhas – tanto com relação às dos outros quanto com relação às dela. Com o tempo, Ana foi percebendo que sua sexualidade não se mede exclusivamente a partir do sexo das pessoas com quem mantém contato. Meninos, meninas, os que têm um pouco dos dois, são, antes de qualquer coisa, pessoas, que podem ser encantadoras nas inúmeras formas de ser e se mostrar. Parece bastante raso que seres humanos sejam classificados num todo generalizado a partir exclusivamente do órgão sexual. O tesão vem com ou sem o amor. O amor vem com ou sem o tesão. Ambos se misturam em meio à combinação complexa de que é feito o próprio ser humano. E esse híbrido de sensações, de vontades e de personalidades pode durar uma hora, dois meses, três anos ou a vida inteira. Quem sabe?

“Os meninos pareciam imaturos e eu não tinha o menor interesse em me relacionar com eles. Não que eu não gostasse de garotos, mas eles eram bobos. Conheci a Laura na internet e ela era minha melhor amiga: a gente passava horas conversando e falando sobre o futuro, nossas vontades, como tudo seria daqui um tempo. Eu me apaixonei por uma menina, mas não foi físico, eu me apaixonei pela pessoa que ela era, pela felicidade que nosso encontro espiritual causava. A vida não é só aquele padrão estético e religioso, ela é o que você quer dela, o que você sente! Eu cresci pensando em casamento, viver feliz para sempre com o príncipe, mas aí a vida me surpreendeu e me trouxe uma princesa e ela poderia ser até mais fofa do que qualquer príncipe na época, então eu pensei, ‘por que não?’ Eu não queria um príncipe bonito, eu queria alguém para sentir amor.”
(Giulia Passos, 22 anos)

Essa história é de Ana, mas poderia ser a minha, a de João, a de Laerte ou a sua. Em questão de sentimento e enquanto as nossas atitudes só dizem respeito a nós e ao nosso corpo, ao mesmo tempo em que elas estão em sintonia com as da pessoa que está andando ali do nosso lado, não há por que nos sentirmos errados. Homens, mulheres, trans, travestis, gays, bissexuais, heteros, pans ou assexuados: temos nossos corpos – exclusivamente nossos – e ninguém está aqui dentro pra criar regras sobre o que ou como devemos sentir. Temos vontades e sentimentos próprios, planos mirabolantes ou mesmo a ausência deles, e, a menos que a gente deixe, ninguém tem direito algum sobre isso.

Gabriela Soutello

Gosta muito mais de literatura do que de jornalismo, finge que sabe atuar em cima do palco e, pro azar (ou pra sorte) dos psicólogos, está constantemente insatisfeita.

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