Barreira abaixo

“Muitas mulheres negras sentem que em suas vidas existe pouco ou nenhum amor”

Um emaranhado de fios, uma enorme teia de aranha e uma bola de lã sem fim. Assim são os relacionamentos. Todo mundo tem algum problema com outras pessoas: pais, amigos, vizinhos. E às vezes ainda mais quando se trata de namoro.

Observando as minhas amigas e eu mesma, a vida amorosa não não está nada fácil nos dias atuais. Tudo bem, ser solteira é legal, vagar por aí sem dar satisfações, sair com as amigas de sexta a domingo. Mas tem aqueles dias que a gente só queria um pé quente para aquecer o nosso.

Cresci com algumas frases que influenciaram muito a minha personalidade:

“Sem chorar! Você é pretinha ou negrona?”

“Lívia, você não pode deixar ninguém, muito menos homem, montar em cima de você! Você é uma mulher negra e tem que impor respeito.”

“Ele só ta com ela porque ela dá liberdade. Ele sabe que pode pintar e bordar. Com mulher preta ele sabe que o negócio é mais embaixo.”

Quando se é criança, é dito que ninguém deve abaixar a cabeça por causa do tom de pele. Se o racista descrimina, é fundamental mostrar o orgulho que tem da sua cor e o mais importante: não demonstrar fraqueza e não chorar – nem em pensamento. Assim, a maioria das pessoas negras crescem frias e fechadas.

Amber RIley | Glee

Amber Riley (Mercedes) | Glee

Mas e quando esses ensinamentos viram um problema? Aqui estou eu, a prova viva disso tudo. Cresci assim: fria, fechada e sem sucesso com relacionamentos sérios.

“Muitas mulheres negras sentem que em suas vidas existe pouco ou nenhum amor. Essa é uma de nossas verdades privadas que raramente é discutida em público. Essa realidade é tão dolorosa que as mulheres negras raramente falam abertamente sobre isso.”
bell hooks – “Vivendo de amor”

bell hooks (sem maiúscula mesmo) é uma feminista negra norte-americana que, em um dos seus textos, fala sobre a solidão da mulher negra. Ela diz que o fato de estar sozinha vem do período escravocrata, quando a escrava só servia para satisfazer os desejos do homem branco, o dono de escravos.

Já que era vista como um objeto sexual, a negra não despertava o amor. Era inferiorizada e muito desrespeitada, forçada a manter relações com o seu dono e depois descartada em qualquer canto da senzala.

Antonia Thomas (Alisha) | Misfits

Antonia Thomas (Alisha) | Misfits

A ativista escreve sobre a escravidão nos EUA, mas pode muito bem ser comparada com a do Brasil. Humilhada e desprezada, a mulher negra não era “moça pra casar”, “não era digna disso”. A solidão que a negra de lá sentiu, reflete na mesma que a daqui.

Dizem que isso é questão da autoestima de cada mulher, mas para a preta é diferente. Só lembram da mulher negra na época de carnaval, em que se fala na mulata sambista, na mulata bonita, na mulata do sexo. Mas quem somos nós depois de fevereiro? Uma certeza que as mulheres negras têm é: vão julgar pelo seu cabelo, pelo tamanho do seu nariz e pelo comprimento da sua testa. Antes de olharem para você, é a mulher branca que será admirada.

"Seus problemas comigo não são meus problemas, são seus" (Azealia Banks)

“Seus problemas comigo não são meus problemas, são seus.” (Azealia Banks)

Há alguns anos, eu tinha muita dificuldade de confiar em algum cara. Era insegura até dizer chega! Dificilmente me jogava em aventuras amorosas. Tudo porque me ensinaram a ser rígida e a jamais mostrar meus sentimentos. Até que um dia eu fui… Deu borboletas no estômago, mãos suadas e todos sintomas do amor.

Não deu certo, mas tiveram ótimos momentos.

Depois de algumas decepções, percebi que o jeito não é sair confiando na primeira demonstração de carinho. Mas que também não preciso ser rígida: posso me jogar um pouco quando a pessoa mostra interesse e respeito.

Não sou da cor do pecado e não sou feita apenas para o sexo. Dentro de cada mulher negra, existe uma moça sonhadora e romântica. Sempre há uma princesa negra debaixo de toda bravura e militância.

Eu acordei assim: Perfeita.

Eu acordei assim: Perfeita. (Beyoncé)

 

Livia Martins, em colaboração especial para plano V

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