Acho que não sou hétero – então o que eu sou?

Você é um pontinho no meio da estratosfera sexual

“Eu me sinto atraída por meninas, mas às vezes por meninos também. Eu sou bi? Só que eu nunca fiquei com uma garota!”

“Gosto muito de ficar com meninos e não sinto atração nenhuma por garotas. Mas consigo me apaixonar por elas apesar disso. Tem algo de errado comigo?”

“Tenho vontade de ficar com as pessoas só por quem elas são, não ligo muito pra gêneros. O que isso significa?”

“Eu nunca me atraio por ninguém. E agora?”

Um pouco confuso, mas nada fora do comum. O que vivem falando é que sexualidade é simples: “Ou você é hétero ou gay, fim”. Mas a verdade é que ela é muito complexa, mesmo para as pessoas mais certas de si. A sexualidade é um pouco como um ornitorrinco: é meio pato, meio mamífero. Tem pelos, mas coloca ovo. Não é nem uma coisa, nem outra; é um pouco de tudo. E é bem parecida com a vida: mais rápido ou mais devagar, ela vai se transformando.

Luis Romedo | blog.lxromero.com

Luis Romedo | blog.lxromero.com

Muito do que somos/ fazemos/ gostamos vem das nossas vivências, do nosso ambiente e do que sentimos. Assim como os gostos musicais vão mudando e vão sendo descobertos, a sexualidade também. Dizem que as pessoas nascem com determinada sexualidade e que isso é imutável. Mas o que acontece com frequência em um momento na vida, pode ser totalmente diferente no outro – e pode continuar igual também.

Dá medo de, um dia, tomar coragem e beijar a melhor amiga, seja pelo calor do momento ou por uma paixão doida. Dá medo de, um segundo depois, ser rotulada de lésbica. E a partir daí isso virar uma etiqueta nas costas.

Mas a regra inicial (e que poucos seguem) é: ninguém pode nomear uma pessoa, a não ser ela mesma (se ela gostar de nomes, para começar).

Um pequeno glossário pra te ajudar no que vem pela frente:

EXPECTTT

 

IDENTIDADE

Orange is the new black

Orange is the new black

Quem sou eu? É um tanto assustador se sentir em um lugar desconhecido. Por isso, a primeira coisa que muita gente faz é buscar uma identificação, um nome para chamar de seu – pertencer. Mas nem sempre é tão fácil achar uma palavra para definir sua sexualidade. Há quem bata o olho e fale: “Ahá! Me encontrei!”, tem os que levam anos para isso e também aqueles que preferem usar nome nenhum. E o mais complicado: muitas vezes a identidade de um tempo atrás não representa mais como a pessoa é agora.

Como você se vê? Olhar para dentro e perceber quem te atrai e quais os seus sentimentos é o primeiro passo. Não são os outros que vão dizer. Não são as suas ações e nem as roupas que você veste.

A sexualidade está longe de ser uma linha reta.

 

A ESTRATOSFERA DA SEXUALIDADE

Esse gráfico é apenas um modo de enxergar a sexualidade. Nada disso é um conhecimento exato. | por Luíza Fazio

Esse gráfico é apenas um modo de enxergar a sexualidade. Nada disso é um conhecimento exato. | por Luíza Fazio

Achou confuso? Calma que a gente explica!

[AVISO: As definições de sexualidade podem ser diferentes para cada pessoa. Vamos explicá-las de uma maneira ampla e não pretendemos impor nenhuma regra.]

[AVISO 2: Quando escrevemos “homem” e “mulher”, nos referimos às pessoas cis e trans.]

 

A ESFERA DA ASSEXUALIDADE

por Luíza Fazio

por Luíza Fazio

A assexualidade se divide em três grupos: os assexuais, os demissexuais e os assexuais-cinza. Esses três nomes não têm a ver com quem a pessoa se sente atraída por – se é por garotos, garotas, os dois, outros gêneros etc.

Quem está nessa esfera encara a atração sexual de maneiras diferentes às pessoas “sexuais”: no caso, varia entre nunca ter vontade de beijar ou transar com alguém, sentir desejo raramente ou apenas sob circunstâncias especiais.

Vamos falar mais detalhadamente sobre essas sexualidades mais pra frente nesse post. Se quiser pular para lá direto, clique aqui.

A ESFERA DA SEXUALIDADE

por Luíza Fazio

por Luíza Fazio

Essa esfera tem nomes que definem por qual(is) gênero(s) a pessoa se atrai. Não tem a ver com a freqüência ou condições da atração, como a esfera assexual. Mas quando, por exemplo, uma mulher se diz apenas “homossexual”, quer dizer que ela se atrai por mulheres e está implícito que sente atração com frequência. Mas caso ela diga que é “assexual-cinza e homossexual, quer dizer que ela sente atração sexual poucas vezes, mas quando sente, é por mulheres.

Primeiro, é preciso entender o que cada um desses nomes significa:

HOMOSSEXUAL (Lésbica/ Gay)

Hoje eu quero voltar sozinho

Hoje eu quero voltar sozinho

Quem sente atração sexual pelo mesmo gênero.

Quando eu ia pra escola, sempre gostava mais das meninas e até me apaixonava por algumas. Mas como eu era pequena, sofria o dobro, já que não entendia aquele sentimento.
Cintya Yokoyama – 20 anos

Fiquei com uma ou duas garotas, mas não sentia nada. Só queria provar para quem me chamava de “bichinha” que eu não era. Mas tudo isso era medo.
Wallyson Avancini – 16 anos

HOMOFLEXÍVEL/ HETEROFLEXÍVEL

Esse termo é mais conhecido lá fora e ainda novo no Brasil, mas é para quem, em grande parte do tempo, só se atrai por um único gênero, mas bem de vez em quando pode sentir desejo por outro. Por exemplo,uma menina lésbica que ocasionalmente sente atração por um cara.

Como não é frequente, essas pessoas não se encontram na bissexualidade ou na pansexualidade. Os heteroflexíveis cansaram de ouvir que são “gays no armário” e os homoflexíveis que são “indecisos”.

Glee

Glee

BICURIOSO(A)

Bem parecido com homo/heteroflexível: uma pessoa majoritariamente homossexual ou heterossexual que, eventualmente, se atrai por pessoas de outros gêneros.

A diferença é mais a conotação do nome, que sugere uma época de descoberta sexual.

BISSEXUAL

Bandeira da bissexualidade

Bandeira da bissexualidade

Para muitos bissexuais, a definição varia. Nenhuma está certa ou errada, vai de como a pessoa sente. As mais comuns são:

“Bi” significa “dois”, o que leva a conclusão de que bissexuais se atraem apenas por dois gêneros: homem e mulher. (O que exclui as pessoas não-binárias, gênero fluido e toda a gama de gêneros que há por aí – mais sobre isso nessa parte do post).

Mas muitas pessoas não interpretam dessa forma. Elas entendem que a bissexualidade abrange todos os gêneros. Eles pensam que:

Heterossexual: se atrai por gêneros diferentes do seu.
Homossexual: se atrai pelo mesmo gênero que o seu.
Bissexual: se atrai por gêneros diferentes do seu + pelo mesmo gênero.

A interpretação de um prefixo pode mudar tudo, hein?

Há quem prefira usar o termo “bissexual” porque é um pouco mais conhecido e para se afirmar diante dos que acham que o mundo é dividido entre héteros e gays.

Uma amiga minha me perguntou: “mas tem certeza de que você não é GAY?”. Ainda rola muito disso, de sermos “gays reprimidos”. Mas me assumir como gay seria como negar a minha identidade.
Igor Silva – 18 anos

Faking It

Faking It

PANSEXUAL

Bandeira da pansexualidade

Bandeira da pansexualidade

“Pan” significa “tudo”, mas não quer dizer que a pessoa se atraia por árvores, peixes ou poltronas reclináveis.

Como há gente que se incomoda com o “bi” de bissexual, por sentir que ele só refere aos gêneros “homem” e “mulher” – e ignora outros gêneros, como os não-binários -, foi criado o termo pansexual. Assim, se refere àqueles que se atraem por pessoas de todos os gêneros ou por pessoas independentemente do seu gênero.

Primeiro eu descobri o nome “bissexualidade”, mas parecia que faltava alguma coisa. Quando vi a pansexualidade, pareceu se encaixar com a minha definição de quando eu tinha 12 anos: ”gosto de pessoas”. É uma questão de identificação mesmo.
Hanna Marques – 15 anos

POLISSEXUAL

Bandeira da polissexualidade

Bandeira da polissexualidade

É uma ramificação de pansexual. Quem se atrai pela maioria dos gêneros, mas não todos.

 

OS GÊNEROS ALÉM DE “HOMEM” E “MULHER”

Pessoas trans são aquelas que entendem o seu gênero de uma maneira diferente ao qual lhes atribuíram ao nascer. Quando um bebê sai da barriga da mãe e ele tem determinado órgão sexual, logo é considerado “menina” ou “menino”. Com isso, vem toda a expectativa em cima da pessoa. Por ser “garota”, lhe ensinarão a ser quieta, delicada, a gostar de rosa e a aguardar pelo príncipe encantado. A mídia diz o que uma garota faz ou não e o que gosta ou não. Ir contra os padrões é lutar contra os estereótipos de gênero. Mas, para as pessoas trans, a luta não se resume a isso.

Gênero é uma construção social, não algo com o qual nascemos. Não é o órgão genital que define a personalidade de uma pessoa – este é apenas uma parte do corpo. E quando alguém que é encarado socialmente como mulher, se enxerga como homem – e quer ser visto como um – é que começa a luta e o conflito para ser tratado como um, respeitado e ter seu nome masculino validado e não deixar ser reduzido pelo seu genital.

"Caixa do gênero" / "Não há caixa!"

“Caixa do gênero” / “Não há caixa!”

Além das pessoas trans binárias (que se identificam completamente com apenas um dos gêneros feminino ou masculino), há também os não-binários (a quem a matéria refere lá em cima!). Essas pessoas não se veem 100% em um desses gêneros jáestabelecidos. Podem se enxergar como uma mistura de elementos masculinos ou femininos (não-binário/ genderqueer). Às vezes, o gênero flui: um dia se sente mais homem, no outro mais mulher (gênero fluido). Há quem se vêem gênero nenhum e se denomina agênero. E há mais milhares de outras variações e nomenclaturas.

Para entender mais, você pode acessar essa entrevista em vídeo com a ativista trans Daniela Andrade e esse blog sobre não-binarismo.

 

De volta à esfera da assexualidade, aqui vai uma explicação breve da esfera que se refere à frequência e condição da atração sexual de cada um:

ASSEXUAL

Bandeira da assexualidade (engloba também a demissexualidade e a assexualidade-cinza)

Bandeira da assexualidade (engloba também a demissexualidade e a assexualidade-cinza)

Quem não tem atração sexual por outras pessoas. Não sente desejo pelo garoto bonito da escola, ou pela vizinha legal, nem mesmo se estiver apaixonado por alguém. Isso não significa não querer estar com a pessoa – só que não há vontade de beijar ou transar.

Assexuais estão cansados de ouvir que sua sexualidade é o sintoma de um trauma, de uma disfunção ou de que “não acharam a pessoa certa”.

Mesmo não se atraindo por outras pessoas de forma sexual, muitos sentem vontade de se masturbar – só porque não há excitação com os outros, não significa os assexuais não possam se divertir com o seu corpo. Alguns que fazem isso se denominam autossexuais (se consideram auto suficientes sexualmente).

Também vale ressaltar que achar alguém bonito ou bonita não significa estar atraído por tal pessoa.

Sempre colocaram na minha cabeça o que era “saudável” ou não, então nunca consegui me ver com naturalidade. Ser assexual não foi fácil de aceitar ou até mesmo de entender, mas depois que descobri o termo, não me senti tão sozinha.
Tainah Kuczynski - 16 anos

Quando reparei que não sentia nada por homens, pensei que eu fosse lésbica, mas nunca senti nada por mulheres. Vi também que não sentia nada por outros gêneros. A partir do momento que descobri o termo, não duvidei de que eu fosse.
Eloise Ferreira - 16 anos

ATENÇÃO: Assexualidade não é o mesmo que jurar celibato. O celibatário escolhe não fazer sexo. Já o assexual não tem vontade de fazer.

Pretty Little Liars

“Talvez eu não seja a pessoa que todos pensam que eu sou” | Pretty Little Liars

ASSEXUAL-CINZA (GRAY-A)

A frequência com que uma pessoa assexual-cinza sente atração por alguém é rara ou quase nunca. E quando acontece, pode ser apenas um desejo e acabar nem rolando sexo ou qualquer outro tipo de atividade.

DEMISSEXUAL

Só sente atração sexual por quem tem um forte sentimento – pode ser uma grande amizade ou uma paixão.

Quando eu era pequena, via meus amigos fantasiando com celebridades, enquanto só o que eu queria era dar um bolo para os meus ídolos.
Laura Dias – 20 anos

"Deixe que eles comam bolo" | Maria Antonieta

“Deixe que eles comam bolo” | Maria Antonieta

 

ORIENTAÇÃO ROMÂNTICA

Se sexo pode existir sem amor, por que não pode ter amor sem sexo? Muitos assexuais, assexuais-cinza e, claro, demissexuais,também se apaixonam. Mas o sentimento também pode ser acompanhado de orientação – é o que chamamos de “orientação romântica”.

Assim como os sexuados se atraem por determinados gêneros – os gays só sentem desejo por homens, por exemplo -, os assexuais também, mas na questão do amor. A Laura Dias, que entrevistamos, se considera demissexual e homorromântica – ou seja, só sente vontade de ficar com alguém quando há amor e só se apaixona por meninas.

Mais um gráfico para facilitar (ou confundir um pouco):

Há muitas outras orientações românticas. O gráfico é só uma amostra das diversas possibilidades. | por Luíza Fazio

Há muitas outras orientações românticas. O gráfico é só uma amostra das diversas possibilidades. | por Luíza Fazio

O prefixo das sexualidades tem o mesmo significado na orientação romântica. Então alguém panromântico, por exemplo, pode se apaixonar pessoas de diversos gêneros, enquanto que uma homorromântica só sente amor por quem tem o mesmo gênero que o seu. O arromântico é quem não se apaixona. E assim vai!

Mesmo para quem é sexual, não há regras. Às vezes, uma garota pansexual gosta de ficar com pessoas de diversos gêneros, mas só consegue se apaixonar por meninos. Se ela quiser, pode se denominar pansexual e heterorromântica, por exemplo.

Skins

“Quando eu estou com você, eu me sinto uma pessoa melhor. Mais feliz. Menos sozinha. Menos solitária”. | Skins

 

SEXUALIDADE FLUIDA

Quem vê a própria sexualidade mudando bastante ao longo da vida, e por isso prefere não se definir com um dos termos anteriores. Sente que esses nomes são muito definitivos.

Até uns 17 anos, eu não tinha interesse por ninguém. Depois, passei a gostar só de garotas – zero interesse em caras. E agora eu comecei a curtir homens também. Com dessa mudança toda, não dá para me rotular.
Daniela Marreira – 19 anos

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“Eu não acho que deveria ser uma grande coisa quem você ama” | Taylor Swift

 

“NÃO GOSTO DE NOMES”

Às vezes nomes fazem bem, são reconfortantes. Mas tem gente que não gosta: sentem que nomear a sua sexualidade acaba limitando suas experiências, se veem presos dentro de uma caixinha.

Sexualidade é apenas um aspecto dentre tantos outros que formam as pessoas. Para alguns, entender a si mesmo e estar em paz com sua sexualidade é o bastante.

Se eu gosto de alguém, simplesmente me sinto atraída e ponto. Ainda não me “batizei” porque não quero ninguém me dizendo como eu devo me comportar: se sou hétero demais, lésbica demais etc.
Camila Leite – 20 anos

O NOME COMO UM ATO POLÍTICO

Para alguns, nomear sua sexualidade vai muito além do que apenas uma definição de identidade. É como um grito no meio da multidão que diz que só é certo ser heterossexual. Batizar sua sexualidade “fora do padrão” é pedir por direitos e dizer ao mundo: “eu existo!”.

Eu acho que seria perfeito se não tivéssemos que nos atribuir um nome, mas a sociedade PRECISA de um rótulo pra tudo, e a partir do momento em que você se isenta dele, é uma forma que ela encontra de te esmagar. Uso homoflexível como forma de resistência à opressão.
Renan Lira – 18 anos

Cara Delevingne e Miley Cyrus

Cara Delevingne e Miley Cyrus

 

MAS NA VERDADE MESMO,

Se o seu objetivo é achar um termo para se encaixar, pare e pense: nas pessoas que te atraem, com quem você fantasia, quem você ama e nas reações do seu corpo. E não deixe que ninguém faça isso por você.

Nenhuma dessas opções é boa? Existem muitos outros nomes por aí. Mas não ter uma palavra para te definir não significa que você não tem uma identidade – apenas que você está em construção.

E se mesmo depois de muita pesquisa você não encontrar um nome para si? Então crie um!

 

PARA SABER MAIS

Vídeos:

Canal das Bee

Sites:

bisides.com
sapatomica.com
assexualidade.org
Fanpage Assexualidade da Depressão
everydayfeminism.com

Com a colaboração da psicanalista e sexóloga Edith Modesto, doutora em semiótica pela Universidade de São Paulo (USP) (edithmodesto@usp.br)

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Luiza Fazio

Vivendo em um musical de baixo orçamento.

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