9 poetas para ler na vida

Em cada poeta, um novo jeito de desenhar o mundo

 

Imagem de destaque por Laura Athayde (fb.com/ltdathayde)

Vladimir Maiakóvski (1893 – Geórgia / 1930 – Moscou, Rússia)

Maiakovski - Virgínia Moura

“Eu”. / Arte por Virgínia Moura (fb.com/ninaponto)

O poeta da revolução. Maiakóvski criou um estilo poético totalmente novo, ignorando padrões, métricas e regras e fazendo os seus próprios. Sua motivação era a força das ideias socialistas da Revolução Russa – a partir de um novo mundo, queriam tirar a grande população de camponeses e trabalhadores, literalmente, da merda.

Nas calçadas pisadas
de minha alma
passadas de loucos estalam
caicâneos de frases ásperas
Onde
forças
estagnam cidades
Vladimir Maiakóvski.
“Eu”.

Poemas: A plenos pulmões, Balalaica.

Filmes: Black and White (1933 – animação baseada em seus poemas).

 

Sylvia Plath (1932 – Boston, EUA / 1963 – Londres, Inglaterra)

Diários de Sylvia Plath. / Arte por Kato (fb.com/katobored)

“Diários de Sylvia Plath”. / Arte por Kato (fb.com/katobored)

Sylvia Plath foi atormentada pela autoridade do pai e sua morte precoce, por um marido infiel e pelas expectativas não correspondidas do seu papel como mulher nos anos 60. Encontrou na auto-destruição a energia criativa para escrever versos com imagens cheias de um sofrimento encantador.

Dentro de mim mora um grito.
De noite, ele sai com suas garras, à caça
De algo para amar.
Sylvia Plath.
“Diários de Sylvia Plath”

Poemas: Papai, Palavras, Papoulas de Julho.

Obras: Ariel (1965 – poesia), A Redoma de vidro (1963 – prosa).

Filmes: Sylvia – amor além de palavras (2003 – filme biográfico).

 

Carolina Maria de Jesus (1914 – Sacramento, Brasil / 1977 – São Paulo, Brasil)

"Quarto de despejo". / Arte por Satin (fb.com/satanwithatypo)

“Quarto de despejo”. / Arte por Satin (fb.com/satanwithatypo)

Cresceu e morou na favela, e descreveu a fome e a pobreza do ponto de vista mais real: a de quem sente. Em seus diários, narra os horrores do cotidiano e as fantasias em que se apoiava para se manter viva. O seu sonho era publicar o livro que escrevia no verso dos papéis catados na rua. Em 1958, foi descoberta por um jornalista, que a publicou e fez seu sucesso acontecer.

Não digam que fui rebotalho,
que vivi à margem da vida.
Digam que eu procurava trabalho,
mas fui sempre preterida.
Digam ao povo brasileiro
que meu sonho era ser escritora,
mas eu não tinha dinheiro
para pagar uma editora.
Carolina Maria de Jesus.
“Quarto de despejo”

2014 é o centenário de nascimento de uma das poetas negras mais importantes do país.

Obras: Quarto de despejo (1960 – diário), Pedaços de fome (1963 – ), Antologia pessoal (1996 – poesia).

Filmes: Favela – a vida na pobreza (1971 – documentário), Carolina (2003 – curta-metragem biográfico).

 

Pagu (Patrícia Galvão) (1910 – São João da Boa Vista, Brasil / 1962 – Santos, Brasil)

"Natureza morta". A figura do curvo traz a ideia de frio e solidão, imortalizada no poema "O corvo" de Edgar Allan Poe. / SHOSH (fb.com/shoshanamaria)

“Natureza morta”. A figura do curvo traz a ideia de frio e solidão, imortalizada no poema “O corvo” de Edgar Allan Poe. / Arte por SHOSH (fb.com/shoshanamaria)

Foi a primeira mulher a ser presa e torturada por questões políticas no Brasil (na ditadura do Estado Novo, anos 30). Depois, foi presa mais 22 vezes. Participou de greves, jornais socialistas e rodou o mundo na época em que as mulheres deveriam cuidar da casa. Começou como poeta modernista ao lado de Mário e Oswald de Andrade, mas suas palavras informais e introspectivas são pouco lembradas.

Se eu ainda tivesse unhas
Enterraria os meus dedos nesse espaço branco
Vertem os meus olhos uma fumaça salgada
Este mar, este mar não escorre por minhas faces.
Estou com tanto frio, e não tenho ninguém…
Nem a presença dos corvos
Pagu.
“Natureza morta”

Poemas: Nascimento vida paixão e morte, Natureza morta, Nothing.

Obras: Patrícia Galvão, Pagu: vida – obra (1982 – antologia/ prosa e poesia), Parque industrial (1933 – romance proletário).

Filmes: Eternamente Pagu (1987 – filme biográfico).

 

Arthur Rimbaud (1854 – Charleville, França / 1891 – Marselha, França)

“Partida”. / Arte por Izadora Luz fb.com/izadoraluzcampos)

Ele não se via como parte desse mundo. Amargurado e inquieto, achava que seus talentos eram inúteis, que não pertencia a lugar algum. Perambulava por uma Paris boêmia em um único estado de espírito: vazio. Através das palavras, ele cavava e cavava, mergulhando na escuridão da sua alma e escrevendo as imagens desconexas que via por lá.

Farto de ver. A visão que se reecontra em toda parte.
Farto de ter. O ruído das cidades, à noite, e ao sol, e sempre.
Farto de saber. As paradas da vida. – Ó Ruídos e Visões!
Partir para afetos e rumores novos.
Arthur Rimbaud.
“Partida”.

Chocou a elite literária francesa com apenas 17 anos e influencia muitos até os dias de hoje – desde Picasso até Jim Morrison.

Poemas: Uma temporada no inferno (prosa poética), Canção da torre mais alta, Ao sol.

Obras: Uma temporada no inferno (1873), Poesias (1895).

Filmes: Eclipse de uma paixão (1995).

 

Ana Cristina Cesar (1952 – Rio de Janeiro, Brasil / 1983 – Rio de Janeiro, Brasil)

"Projeto para um romance de vulto". / Arte por Heloísa Pereira (fb.com/mortadefome e fb.com/helozinhaflora)

“Projeto para um romance de vulto”. / Arte por Heloísa Pereira (fb.com/mortadefome e fb.com/helozinhaflora)

Na sua poesia de corta-e-cola, Ana C. (como também é chamada) mixa textos curtos, partes de poemas, cartas, páginas de diários, conversas ao telefone, rabiscos. Os fragmentos do cotidiano são uma confissão em primeira pessoa. Cesar inovou e rompeu o silêncio artístico da época – anos 70, plena ditadura militar. A poeta marginal explora a beleza do instante, do agora, e conversa com a própria experiência de estar no mundo.

Eu me curvo e me escondo ante o que escrevi ao me entregar totalmente a esta obsessão. E sinto inclusive o infeliz medo da tua leitura mas fico subitamente feliz porque percebo que deste medo posso fazer outros textos que tematizem o medo e depois falem do texto que escrevi para aplacar o medo e dos outros textos que escrevi para aplacar os primeiros textos.
Ana C.
“Projeto para um romance de vulto”

Poemas: Samba-canção, Carta de Paris, Psicografia.

Obras: Cenas de abril (1979), Luvas de pelica (1980) e A teus pés (1982).

Filmes: Bruta aventura em versos (2011 – documentário).

 

Pablo Neruda (1904 – Parral, Chile / 1973 – Santiago, Chile)

"Nenhuma outra viajará pela sombra comigo". / Arte por Nah Singh (fb.com/singhbean)

“Nenhuma outra viajará pela sombra comigo”. / Arte por Nah Singh (fb.com/singhbean)

Na primeira fase de sua poesia, Pablo narra o amor: a felicidade da paixão, a melancolia da ausência e a dor do fim. Faz metáforas incomuns e cria imagens além da realidade. Ao ver os horrores da Guerra Civil Espanhola (1936-39), se engajou em mudanças para o seu próprio país e passa a denunciar as injustiças da América Latina. Em 1971 ganhou o Prêmio Nobel de Literatura.

Já és minha. Repousa com teu sono no meu sono.
Amor, dor, trabalhos, devem dormir agora.
Gira a noite em suas rodas invisíveis
e ao meu lado és pura como o âmbar adormecido.
Nenhuma outra, amor, dormirá com meus sonhos.
Pablo Neruda.
“Nenhuma outra viajará pela sombra comigo”

Poemas: O poço, O teu riso, Já és minha

Obras: Vinte poemas de amor e uma canção desesperada (1924), Canto geral (1950), Confesso que vivi (1974).

Filmes: O carteiro e o poeta (1994).

 

Lord Byron (1788 – Londres, Inglaterra / 1824 – Missolonghi, Grécia)

"Uma taça feita de crânio humano". / Arte por Paulina Bas

“Uma taça feita de crânio humano”. / Arte por Paulina Bas

A voz da melancolia, do tédio. Nada o surpreendia: a beleza, as palavras, as viagens. Era conhecido por sua vida escandalosa para a época, a base de sexo, bebida e dívidas. Seu pessimismo se marcou na poesia de métrica rígida e essência aristocrática. Byron brinca com a morte e imagens obscuras, é cínico, instável e critica as morais religiosas.

Bebe, enquanto inda é tempo! Uma outra raça,
Quando tu e os teus fordes nos fossos,
Pode do abraço te livrar da terra,
E ébria folgando profanar teus ossos.
E por que não? Se no correr da vida
Tanto mal, tanta dor ai repousa?
É bom fugindo à podridão do lado
Servir na morte enfim p’ra alguma coisa!…
Lord Byron.
“Uma taça feita de crânio humano”

Poemas: Separação, Estâncias para música, Eutanásia.

Obras: Manfred (1817), Don Juan (1824), O deofrmado transformado (1824).

Filmes: Gothic (1986).

 

Florbela Espanca (1894 – Vila Viçosa, Portugal / 1930 – Matosinhos, Portugal)

"Lágrimas ocultas". / Arte por Thaís Helena Reis.

“Lágrimas ocultas”. / Arte por Thaís Helena Reis (fb.com/alphatauri6)

Era esperado que cursasse a escola primária e se casasse. Florbela, ao contrário, se formou na Faculdade de Direito, casou três vezes e era sempre vista nos bares e grupos literários portugueses – meios dominados pelos homens. Seu temperamento forte permitia que fizesse só o que gostava: escrever e viver intensamente. Escrevia muito sobre o amor, mas não permitia que ele fosse o confinamento das mulheres, e, em seus poemas, são elas quem protagonizam as relações.

E a minha triste boca dolorida
Que dantes tinha o rir das primaveras,
Esbate as linhas graves e severas
E cai num abandono de esquecida!
E fico, pensativa, olhando o vago…
Toma a brandura plácida dum lago
O meu rosto de monja de marfim…
E as lágrimas que choro, branca e calma,
Ninguém as vê brotar dentro da alma!
Ninguém as vê cair dentro de mim!
Florbela Espanca.
“Lágrimas Ocultas”

Poemas: Volúpia, Fanatismo, A mulher.

Obras: (poesia) Livro de mágoas (1919), Livro de soror saudade (1923) e Charneca em flor (1930).

Filmes: Florbela (2012 – filme biográfico).

Luiza Fazio

Vivendo em um musical de baixo orçamento.

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